THIS PLACE TRIES TO SHOW US THAT LEARNING MORE IS POSSIBLE!

DESVENDANDO O MISTÉRIO

NARRAÇÃO DE ENIGMA

A narrativa de enigma tem como personagens o criminoso, a vítima, os suspeitos, o detetive.
A narrativa se desenvolve a partir de um crime cometido, e o leitor acompanha todos os procedimentos da investigação, por meio do olhar do narrador. Uma das características da narrativa de enigma é o fato de que a história da investigação é freqüentemente contada por um amigo do detetive, no papel de narrador. Esse, na maioria das vezes, reconhece estar escrevendo um livro e, assim como o leitor, desconhece o que vai acontecer, ao longo da história – o que ajuda a criar o suspense…

O ANJO DA GUARDA

                         Rubem Fonseca

(1) A casa tinha vários quartos. Perguntei em qual deles eu ia dormir. Ela me levou para um quarto que ficava perto do dela.

Sentei na cama, testei o colchão.

Não dá, é muito mole, vai acabar de vez com as minhas costas.

Testei os colchões de todos os quartos e acabei encontrando um duro.

Esse aqui está bom, você tem uma camisa que sirva em mim? Esqueci de trazer uma roupa para dormir.

A mulher voltou logo em seguida com uma camisa de malha branca.

Essa é a maior que eu tenho. Usei uma vez, tem importância?

Agradeci e a mulher me deu boa-noite. Vesti a camisa, senti o cheiro do tecido, uma mistura de pele limpa e perfume.

Procurei uma posição para dormir. As costas doíam. Eu tinha uma porção de ossos quebrados e mal-emendados espalhados pelo corpo.

(10) A mulher bateu tão de leve na porta que quase não ouvi.

Sim?

Sou eu. Queria falar com você.

Um momento.

Vesti a calça e abri a porta.

Ela vestia um penhoar e uma mulher de penhoar sempre me lembra minha mãe. Aliás a única coisa que lembro da minha mãe é o penhoar.

Você está muito longe, não me sinto protegida, não consigo dormir, você não pode ir para aquele quarto ao lado do meu? A gente leva o colchão duro dessa cama e troca pelo outro.

Levei o meu colchão duro para o quarto ao lado do dela.

Sentei na cama.

Acho que agora está bom. Dá para dormir, boa noite.

(20) Boa noite.

Não aguentei dez minutos deitado. A dor na coluna aumentou. Saí da cama, sentei-me numa poltrona que havia no quarto.

Outra batida na porta.

O que é?

Ouvi um barulho no jardim, ela sussurrou através da porta, acho que tem alguém no jardim.

Vesti a calça. Abri a porta. Ela continuava de penhoar.

Isso deve ser impressão sua. Você anda muito nervosa. Em que lugar do jardim?

No bosque das magnólias. Lá não tem luz e tive a impressão de que vi uma luz apagar e acender.

Você tem uma lanterna?

Tenho.

(30) A mulher me deu a lanterna.

Toma cuidado. Eu já lhe contei as coisas horríveis  que têm acontecido comigo, não contei?

Você devia ir para o seu apartamento na cidade.

Lá é pior. Eu já lhe contei. Tive que desligar o telefone por causa dos trotes no meio da noite, me ameaçando. E tem gente me seguindo pelas ruas. Aqui pelo menos as janelas estão todas gradeadas e as portas são de ferro. Leva o revólver.

É melhor o revólver ficar com você. Fecha a porta. E não fica olhando lá pra fora pela janela.

Era um sítio grande. Um gramado com canteiros de flores rodeava a casa. No meio do gramado, uma piscina. Nos fundos, a casa do caseiro, a horta. O resto do sítio era cheio de bosques com árvores de grande porte, que tornavam a noite ainda mais escura. Havia bancos de pedra espalhados pelo meio das árvores. Sentei em um deles, no bosque de magnólias. Esperei, a lanterna acesa sobre o banco.

Sônia surgiu silenciosamente de dentro do escuro, sentou-se ao meu lado no banco de pedra.

Você deixou o seu revólver num lugar onde ela visse?

Deixei na mão dela. Estou seguindo o plano de vocês.

Ouve esse barulho, disse Sônia ligando um gravador que tirou da bolsa. Parecia um gemido, de alguém morrendo. Não parece um fantasma?

(40) A sorte de vocês é que aqui não tem cachorro.

Tinha. Nós o envenenamos. O Jorge envenenou. Quando é que ela vai usar o revólver?

Ela está morrendo de medo, vamos esperar mais um pouco. Quem é esse Jorge?

Se você não sabe eu não vou dizer.

Por que vocês querem que a mulher morra?

Isso não é da sua conta.

Vou voltar para a casa. Desliga esses gemidos. Por hoje chega.

(47)Não se esqueça do nosso acordo, disse Sônia. Dentro de mais três dias isso tem de ser resolvido. Se ela continuar indecisa, você dá o tiro na cabeça dela.

 

Voltei para a casa. A mulher abriu a porta com o meu revólver na mão. Tremia, com os olhos esbugalhados.

Que barulho era aquele?

(50) Nada.

Como nada? Eu ouvi. Você pensa que estou maluca?

Não.

Eu sei, eu sei que você pensa que estou maluca.

A mulher apontou o revólver para mim.

Diga a verdade. Você acha que eu sou maluca. Os caseiros achavam que eu era maluca e foram embora de noite, sem me dizer nada. Eu acabei de ouvir um gemido forte, o barulho de uma alma penada, como a minha, e você me diz que não era nada? E este revólver que não tem balas? É assim que você ia me defender? Com um revólver sem balas?

Como você sabe que não tem balas?

Dei seis tiros na minha cabeça e não aconteceu nada.

Esqueci de colocar as balas. Não sei como isso foi acontecer, sou muito cuidadoso.

Você tirou as balas porque pensou que eu era maluca e ia dar um tiro na cabeça.

(60) Estou aqui para proteger você. Vai dormir. Amanhã de manhã a gente conversa.

Não fala assim comigo. Estou muito nervosa. Dorme no meu quarto comigo.

Está bem.

A mulher deitou-se sem tirar o penhoar, cobriu-se com um lençol. Sentei na poltrona do quarto. Todos os quartos tinham poltronas e banheiro privativo.

Da cama ela olhava para mim, suspirava como quem quer chorar.

Vem aqui, segurar na minha mão.

Segurei na mão dela.

Você tem a mão grande. Você era trabalhador braçal?

Não.

Você foi sempre acompanhante de pessoas doentes?

(70) Quando eu era jovem passei uns dois anos empurrando a cadeira de rodas de um velho. Foi a melhor época da minha vida, eu gostava de ler, ele tinha milhares de livros e eu passava o dia lendo.

Nunca vi você lendo aqui.

Ainda não tive tempo e os seus livros não me atraem.

Sinto muito. E depois de trabalhar na casa cheia de livros que te atraíam?

Depois tomei conta de outro velho.

Ele era doente mental?

Não. Uma doença de velhice ( O sujeito se matou, com a minha ajuda mas isso eu não diria a ela .)

Vê se consegue dormir um pouco.

Eu sou maluca?

Não. Está apenas muito nervosa.

(80) A mulher dormiu. Larguei a mão dela. Fui para a poltrona e fiquei a noite inteira acordado, pensando, sentindo o cheiro da camisa dela no meu corpo e olhando para a mulher enquanto ela dormia. O homem primitivo devorava como uma hiena os restos dos cadáveres dos bichos que encontrava e que haviam sido caçados por outros animais. Só se tornou um caçador depois que astutamente inventou suas armas perfurantes. Coloquei as balas no tambor do revólver.

(81) A mulher na cama parecia um cachorro morto em quem era fácil dar pontapés. Não faço perguntas, quando me pedem um serviço. Mas neste caso gostaria de saber quem queria que ela desse um tiro na cabeça. Um marido escroto aterrorizando a mulher histérica para fazer ela se matar e o puto ficar com a grana? Já passei por uma situação mais ou menos assim, numa semana de carnaval.

 

O dia raiou, os passarinhos começaram a piar e a mulher acordou. Ela sorriu para mim.

Hoje estou me sentindo melhor. Acho que esse pesadelo vai acabar. Vou trabalhar no jardim, você fica perto de mim?

Saí do quarto dela. No meu banheiro, lavei o rosto e escovei os dentes. Fui para o jardim.

A mulher tinha um chapéu na cabeça para protegê-la do sol. Pediu para eu acompanhá-la até um quarto de ferramentas que ficava ao lado da garagem. Havia picaretas, pás, um cortador elétrico de grama, uma bomba com implementos para limpar a piscina. Pegou uma tesoura dessas que se usam nos jardins.

Meu jardim é bonito, não é? Eu mesma plantei essas flores, não são bonitas?

Não dou muita importância a flores, mas ouvi com paciência ela dizer os nomes das que cresciam nos canteiros.

Preciso dar um telefonema.

O telefone está desligado.

(90) Vou lá no centro da vila.

Por favor, não me deixe sozinha.

Então você vem comigo. Depois você trabalha no jardim.

Pegamos o carro dela.

Você gosta de música?

Se você quiser ouvir eu não me incomodo.

Ela colocou um concerto de violino no aparelho do carro.

Não dá uma sensação de paz?

Música de violino me deixa inquieto, mas aguentei sem dizer nada. Chegamos na pracinha da vila. Parei na porta do mercadinho, cheia de sacos de comida de gato e de cachorro.

Ela saltou do carro comigo. Vou fazer compras, cansei de comer congelados.

(100) O homem do mercadinho cumprimentou-a amigavelmente, a mulher tinha aquele sítio havia muitos anos. O homem perguntou se eu era o novo caseiro e a mulher respondeu que eu era um amigo.

Próximo havia uma padaria. Liguei de lá para a Sônia.

Vou fazer o serviço. Mas quero antes ter uma conversa com você e o Jorge. Quero receber o que falta. Hoje à noite, naquele lugar onde nos encontramos ontem.

O Jorge não vai.

O problema é dele. Se ele não vier conversar comigo, nada feito. Nove horas.

Desliguei o telefone. Voltei ao mercadinho. Peguei a saca cheia de compras e fomos para o carro.

A mulher trabalhou no jardim, depois fez comida para nós. Mas apenas sentou comigo na mesa, não comeu nada. Logo voltou a trabalhar no jardim, enquanto ouvia música, eu o tempo inteiro ao lado dela, sofrendo com aquela música, desejando que aquilo tudo acabasse de uma vez.

Quinze minutos antes das nove eu disse para a mulher que ia dar uma olhada no terreno do sítio, que talvez demorasse um pouco.

Não me deixa sozinha.

Peguei a lanterna.

(110) Não vou me afastar muito, não se preocupe. Tranca tudo e só abra a porta para mim. E não fica na janela.

Por favor…

Não se preocupe.

(113)Saí, levando o revólver. No quarto de ferramentas peguei duas pás e uma picareta e fui para o bosque de magnólias. Sentei no banco de pedra, a lanterna acesa. Coloquei as pás e a picareta ao lado do banco.

 

Sônia e Jorge demoraram a aparecer. O homem usava um chapéu que cobria metade do rosto dele.

Apaga essa lanterna. O que você queria comigo?

Eu o reconheci logo. Se você quer ficar vivo neste mundo de merda não pode esquecer nem a cara nem a voz de ninguém. Era o filho do velho Baglioni que eu ajudara a ir para o outro mundo. Fingi que não o reconhecera.

Uma pergunta, apenas. A mulher é sua esposa?

Essa velha? Ela é minha sócia, pirou e está fodendo os negócios. O que você queria comigo?

Receber o que falta.

(120) Antes de você fazer o serviço? Impossível. Trato é trato.

Vou matar a mulher hoje e dar o fora. Como vou receber o que falta?

Você sabe onde encontrar a Sônia. Ela te paga depois.

Acendi a lanterna. Mostrei as pás e a picareta.

Quero que vocês me ajudem a abrir uma cova, se eu for fazer isso sozinho vai levar um tempo enorme. O corpo tem que sumir. Fiz compras com ela no mercadinho da vila e viram a minha cara.

Só faltava essa, disse Jorge.

Sem cova não tem cadáver.

Está bem, está bem, disse Jorge pegando uma das pás. Eu peguei a outra e a picareta.

Aqui não. Temos que sair do sítio, vamos para a floresta.

Não posso andar muito, estou de sapatos altos, disse Sônia.

(130) O problema é seu.

Andamos pela floresta, Sônia reclamando que os seus sapatos estavam se estragando.

Aqui está bom, eu disse.

Sônia se recusou a cavar. Eu e Jorge trabalhamos em silêncio, como os coveiros fazem. Não é fácil abrir uma cova grande, ainda mais num solo duro como aquele. Empapamos de suor as nossas camisas. Jorge suava mais do que eu, mas não tirou o chapéu que escondia o seu rosto.

Jorge largou a pá. Chega, já é suficiente, ele disse.

Continuei com a picareta na mão.

Ainda falta uma coisa, eu disse.

Golpeei com força a cabeça de Jorge, usando a ponta da picareta. Ele caiu. Sônia começou a correr, mas deu apenas alguns passos e um grito de medo, não foi bem um grito, foi uma espécie de uivo.

Verifiquei se estavam mesmo mortos, não queria enterrá-los vivos. Trabalhei aprofundando a escavação mais um pouco. Joguei os dois dentro do buraco e cobri com terra. Soquei a terra com a pá e cobri a cova com pedras e galhos de árvore. Naquela floresta só havia passarinhos, sapos, cobras, insetos e outros bichos inocentes. Não iam abrir aquela cova, mas eu não queria correr riscos.

Lavei as pás e a picareta no tanque e levei de volta para o quarto de ferramentas. Bati na porta de ferro da casa.

(140) Sou eu, pode abrir a porta.

A mulher abriu a porta, assustada como sempre. Você viu alguma coisa?

Não. Nem ouvi nenhum som estranho. Você ouviu?

Não, ela respondeu. Quer tomar um chá? Vou fazer um chá para a gente.

Fiquei no sítio mais uma semana com a mulher, apesar da música. Não há nada mais irritante do que essa música de violino. Todo dia eu ia ver a cova onde aqueles dois estavam apodrecendo, para ver se havia algum cheiro ruim no ar. Nada. No mercadinho da vila indicaram um casal de velhos que foram contratados como caseiros pela mulher. O velho era um homem rijo que trabalhava o dia inteiro no jardim, ele e a minha mãe. Estou brincando, mas gostaria que ela fosse minha mãe. Eu gostava dela. Se tivesse uma mãe assim eu seria um homem diferente, meu destino ia ser outro e eu tomaria conta dela, ia ter alguém para amar.

Ela estava no jardim com o caseiro, mexendo na terra. Tenho que ir embora, eu disse.

Não sei como pagar o que você fez por mim. Fiquei boa. Não tenho mais medo.

Boa você não está. Mas ninguém mais vai ligar o telefone para você no meio da noite, nem ninguém mais vai te seguir pelas ruas apavorando você.

Como posso te pagar? Você deve precisar de dinheiro.

Já recebi o meu pagamento. Mas você pode me levar de carro até a estação de ônibus na cidade.

(150) A mulher me levou de carro até a estação.

Quando você precisar de alguma coisa, me procura. Me dá o seu telefone, disse ela.

Não tenho telefone.

A Sônia deve saber como encontrar você se eu precisar, não? Ela foi muito boa, indicando você para meu anjo da guarda.

Não respondi. A mulher esperou comigo o ônibus chegar, nós dois dentro do carro ouvindo a música que ela gostava e o violino não me pareceu tão irritante.

(155) Peguei o ônibus. Ela me acenou enquanto o ônibus se afastava.

Histórias de Amor (contos). Companhia das Letras, 1997 – 112 páginas

FICHA DE LEITURA

http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=23730(adaptado) – Acesso em 16 de outubro de 2012.

1) Após cuidadosa leitura do conto O anjo da guarda, de Rubem Fonseca responda:

a) Afinal, quem é o ‘anjo da guarda’ nessa história?

b) Por que, então, Rubem Fonseca deu esse título ao conto?

c) A história começa pela introdução, pelo desenvolvimento ou pelo desfecho? d) Onde se passa a história

e) O autor dá mais ênfase ao espaço interno da casa (ambiente) ou ao espaço externo?

f) Qual é o foco narrativo?

g) Quantos conflitos existem nesse conto? Qual é ele?

h) Quantos temas?

i) Quantas são as personagens?

j) Há predomínio de visualidade?

k) Cite uma descrição e o efeito provocado.

l) A história encaminha-se logo para um desfecho?

m) Qual é o desfecho do conto? Que impacto esse conto lhe causou?

n) Os clímax da narrativa são os momentos em que a tensão atinge o seu mais elevado grau. Um conto caracteriza-se por possuir diversos clímax bem próximos um do outro. Identifique um desses momentos e diga qual foi a sensação que vocês experimentaram.

ESTUDO DA LÍNGUA

ADJETIVOS

ADVÉRBIOS

1)    Localize no texto alguns exemplos de adjetivos e advérbios.

a)    Para que essas palavras servem?

b)    O que elas revelam?

c)     Elas ajudam a compreender melhor as ações ou os eventos ocorridos na história? Por quê?

d)    Elas caracterizam o lugar onde a história ocorre e  as personagens que dela participam? Como?

PRODUÇÃO DE TEXTO

Após a leitura do conto O último Cuba-libre, de Marcos Rey, escrevam um texto curto registrando suas impressões sobre a história. Orientem-se nas seguintes questões:

Descobriram o culpado antes do final da narrativa?

Como vocês conseguiram isso?

Quais os indícios constituíram peças fundamentais para essa descoberta?

Que provas o investigador, utilizou para comprovar seu argumento sobre o culpado?

Como o personagem foi caracterizado para que pudesse ser considerado suspeito?

Qual a diferença entre personagem suspeito e personagem culpado?

 

O Último Cuba-libre
Marcos Rey

Durante o dia, Adão Flores era um gordo como qualquer outro. Sua atividade e seu charme começavam depois das 22 horas e às vezes até mais tarde. Então era visto levando seus 120 quilos às boates, bistrôs e inferninhos da cidade, profissionalmente, pois não só gostava da noite como também vivia dela. Empresário de modestos espetáculos, era a salvação última de cantores, mágicos, humoristas decadentes. […]
Como o tempo, Adão Flores adquiriu outra profissão, paralela à de empresário da noite, a de detetive particular, mas sem placa na porta e mesmo sem porta, atividade restrita apenas a cenários noturnos e pessoas conhecidas. Apesar de agir esporadicamente e circunscrito a poucos quarteirões, Adão Flores começou a ganhar certa fama graças a um jornalista, Lauro de Freitas, que começava a fazer dele personagem frequente em sua coluna, a ponto de muita gente supor tratar-se de ficção e mais nada.
Adão Flores apareceu no “Yes-Club”, cumprindo seu itinerário habitual. Rara era a noite em que não comparecia ao tradicional estabelecimento da Bianca, onde seus casos tinham grande repercussão […]. Mas nem teve tempo de sentar-se. Uma mulher, nervosíssima, que já o aguardava, aproximou-se dele um tanto ofegante.
– Lembra-se de mim, Adão?
– Estela Lins?! Como vai o malandro do seu marido? Anda sumido!
– É por causa dele que estou aqui. Adão, você pode me acompanhar? Meu carro está na porta. É um caso grave.
– O que aconteceu?
– Direi tudo no carro.
Júlio Barrios, mexicano, cantor de boleros, fora um dos contratados de Adão que mais lhe deram dinheiro nos quase dez anos que estivera sob contrato. […] Quando o público se cansou dele, Flores levou-o às churrascarias, salões da periferia e cidades do interior, etapas do declínio de qualquer cantor. Júlio não se abateu totalmente, pois, enquanto tivesse uma mulher apaixonada a seu lado, podia levar a vida.
Estela dirigia atabalhoadamente um fusca em estado de desmaterialização.
– Disse que Júlio está assustado?
– Disse apavorado.
– Por quê?
– Telefonemas ameaçadores.
– Quem seria a pessoa?
– Ele diz que não sabe.
– Mas você acha que sim.
– Pode ser algum traficante de drogas.
– Ora, Júlio nunca mexeu com isso. Trabalhamos juntos anos a fio e nunca o vi cheirar nada suspeito. Sua obsessão sempre foi outra…
O que o empresário-detetive imaginava era a ameaça de algum marido ou amante ciumento, daí Júlio não revelar nada a Estela, sua terceira ou quarta mulher desde que chegara ao Brasil. Apesar da decadência artística Júlio continuava bem-sucedido nessa modalidade esportiva. […]
– Júlio sabe que veio me buscar?
– Sabe. Disse que quer tomar um cuba-libre com você, como nos velhos tempos.
– Espero que ele não acredite muito na coluna do Lauro de Freitas. Não sou tão bom detetive assim.
– Estamos chegando.
Estela estacionou o carro diante de um pequeno edifício de três andares. O casal morava no primeiro, cujas luzes estavam acesas.[…] A mulher abriu a porta, […] indicou um velho divã ao empresário. Foi se dirigindo ao interi or do apartamento, an unciando:
– Adão está aqui, querido!< br />O empresário-detetive largou todo o seu peso numa mirrada poltrona, que protestou, rangendo. Não conhecia aquele apartamento. Júlio, sempre que mudava de mulher, mudava também de endereço.[…]
– Quem é o senhor? – Adão ouviu de repente a voz de Estela, vinda do quarto, em tom de pavor. – O que faz aqui?
Adão levantou-se: algo de anormal acontecia.
Novamente a voz de Estela, agora num grito:
– Juuuulio!
Adão deu uns passos enquanto Estela aparecia à porta do quarto, tentando dizer alguma coisa. O detetive entrou precipitadamente. A primeira imagem que viu foi Júlio sobre a cama, ensanguentado.
Estela apontou para a janela aberta.
– Ele fugiu!
Adão correu para sala e Estela abriu a porta do apartamento. Os dois precipitaram-se para a rua, ela na frente. Logo adiante havia uma esquina, que o criminoso já devia ter dobrado. Estela segurou Adão pelo braço.
– Vamos socorrer Júlio.
Regressaram ao apartamento. A lâmina toda de uma tesoura comprida estava enterrada nas costas de Júlio. O detetive apalpou-lhe o peito. O coração já não batia nem no ritmo lento do bolero.
Enquanto a polícia não chegava, Adão dava uma olhada no quarto. Estela, em prantos, aguardava a presença do cunhado, um de seus únicos parentes. Flores notou que algumas gavetas de uma cômoda estavam abertas. O criminoso estivera procurando alguma coisa. No peitoril da janela, um pouco de terra, certamente deixada pelos sapatos do homem que saltara. E sobre o criado-mudo um copo, o último cuba-libre que Júlio não terminara de beber. Sem gelo. Quem tomaria um cuba sem gelo num calor daquele? Foi ao encontro de Estela, na sala, e a achou dobrada sobre o divã.
– Gostaria de conversar com o zelador.
– O prédio não tem zelador, apenas uma faxineira no período da manhã.
– Acha que poderia reconhecer o homem?
– Nunca mais o esquecerei – garantiu Estela. – Era baixo, troncudo e tinha os olhos puxados.
– Já o vira antes?
– Não.
Adão retornou ao quarto, para dar mais uma espiada. Dali a instantes a polícia chegou: um delegado e dois tiras.
– Não mexi em nada – disse Flores. – E cuidado com o peitoril da janela. Há terra de sapato nele. Foi por onde o criminoso fugiu.
– O senhor o viu?
– Não, mas dona Estela poderá ajudar a fazer o retrato falado dele. Ela o encontrou no quarto de Júlio.
O delegado encarou o detetive.
– Você não é um tal Adão Flores, metido a Sherlock?
– Sou esse tal, mas vim aqui como amigo, chamado por Estela. Julio tinha recebido uns telefonemas ameaçadores.
Adão deixou os tiras trabalharem e saiu do quarto. O criminoso saltara da janela para um corredor cimentado que rodeava o edifício. Para baixo o santo tinha ajudado, mas subir pela janela teria sido difícil. Certamente ele tocara a campainha e entrara pela porta. Antes, porém, pisara em algum jardim, como atestava a terra do peitoril. Havia jardim à entrada do edifício?
Um dos tiras apareceu à porta com uma pergunta.
– O senhor deixou uma ponta de cigarro no cinzeiro? Há duas lá, mas só uma é da marca que Julio fumava.
– Só fumo em reuniões ecológicas. O criminoso deve ter tido tempo para fumar um cigarro. Só pode ter sido ele, pois Estela não fuma.
Adão permaneceu no apartamento até a chegada da Polícia Técnica, quando Estela Lins, no bagaço, foi levada pelo cunhado, que, antes de sair, declarou com todas as letras:
– Julio bem que mereceu isso. Um vagabundo, um explorador de mulheres! A polícia não devia perder tempo procurando o assassino.
Já era madrugada quando Flores retornou ao “Yes-Club”. […] Contou a todos o que sucedera, recebendo em troca uma informação. Julio Barrios aparecera por lá, naquela semana, muito feliz. Uma gravadora resolvera lançar um elepê com seus maiores sucessos, Recuerdos, no qual depositava muitas esperanças. Planejava inclusive pintar os cabelos pa ra renovar o visual. E stava animadíssimo.No dia seguinte, Adão Fl ores compareceu à polícia para prestar depoimento. Estela, por sua vez, estava cooperando. O retrato falado do criminoso já estava pronto e sairia em todos os jornais. O delegado, porém, já manifestava uma suspeita.
– Não gostei da cara daquele cunhado. Estela pode até estar tentando protegê-lo.
– Não creio – replicou Adão. – Era apaixonada pelo cantor.
– Mas amores passam – comentou o delegado. – Como certas modas musicais…
Adão Flores foi ao jornal onde trabalhava Lauro de Freitas.
– Quantos quilos você pesa, Lauro?
– Acha que estou engordando?
– Que mal há nisso? Os gordos são belos.
– Setenta quilos.
– Então, venha.
– Onde?
– Você tem o mesmo peso do homem que matou Barrios, segundo declaração de Estela na delegacia.
– E isso me torna um suspeito?
– Vamos ao apartamento.
À porta do edifício, Adão identificou-se a um guarda, que vigiava o lugar desde o assassinato. Não foi fácil convencê-lo a deixar que o detetive e o jornalista entrassem no apartamento.
– Estamos aqui. E agora, Adão?
– Você vai fazer uma coisa, Lauro: saltar do peitoril da janela para o corredor.
Abriram a janela e o jornalista espiou.
– Altinho. Posso sentar no peitoril?
– Não, suba nele e salte.
– E se o pára-quedas não abrir?
– Não salte ainda. Vou para a sala. Aguarde minhas ordens, então salte e corra até a entrada do edifício.
Adão voltou para a sala, deu as instruções e ficou atento. Ouviu o baque dos pés de Lauro no cimento e, em seguida, seus passos rumo ao portão. Pouco depois, Lauro voltou à sala.
– O que quer mais? Sei plantar bananeira.
– Como atleta amador você não pode ser pago. Mas vou lhe fornecer uma bela história para sua indigna coluna. Não tire os olhos de mim. Agora vamos à gravadora Metrópole.
– Por quê?
– Porque quero pôr na cadeia a pessoa que matou o melhor intérprete de “Perfume de Gardênia”. Quem fez isso é meu inimigo pessoal. Não se apaga assim um parágrafo da História.
Adão e Lauro foram à gravadora, onde o detetive conversou com o diretor-artístico. Sim, Barrios ia gravar mesmo um elepê. Esperavam vendê-lo para uns cem mil saudosistas. E o homem fez mais, forneceu certo endereço que Flores considerou importantíssimo.

Quando os jornais revelaram o assassino de Julio Barrios, a melhor reportagem certamente foi a de Lauro de Freitas, por dentro de tudo. […]
Mas o local onde seus casos mais repercutiam era mesmo o “Yes-Club” […]. Na véspera, antes de que os jornais publicassem a solução do enigma, Adão esteve lá para contar tudo em primeira mão.
– Em que momento você começou a puxar o fio da meada? – perguntou a dona da casa.
– Sou um homem do visual, da imagem – disse Flores. – Aquele cuba-libre sem gelo me chamou logo a atenção. Julio gostava de colocar verdadeiros icebergs nas suas bebidas. Como não havia mais gelo e o copo voltara à temperatura ambiente, deduzi que o crime tinha acontecido há algum tempo. Uma hora, talvez…
– Não me parece argumento suficiente para levar a conclusões – disse um homem, provavelmente um desses invejosos que estão em toda parte.
– Certamente não foi minha única dedução. Havia aquela tesoura, arma ocasional demais para servir a um criminoso determinado, que fazia ameaças telefônicas.
O mesmo freguês, que se recusava a bater palmas para Adão, voltou a obstar:
– Usar armas da casa é um meio para implicar inocentes. Os romances policiais sempre relatam coisas assim.
– Uma tesoura não oferece segurança – replicou Flores. – A não ser que o criminoso tivesse sido um alfaiate…
Bianca tinha outra pergunta a fazer:
– Houve roubo? As gavetas estavam todas abertas, não?
– Elas não foram simplesmente abertas, algumas estavam vazias. E sabem quem as esvaziara? O próprio Julio.
– O que havia nessas gavetas? – perguntaram. – Tóxico?
– Roupas, simplesmente roupas. Encontrei-as em uma pequena mala. Mas me deixem prosseguir. O que consolidou minhas suspeitas foi uma questão de acústica.
– Disse acústica?
– Disse. Aí o nosso Lauro ajudou muito. Seu peso equivale ao do homem visto por Estela. Fui com o Lauro ao apartamento do Julio e pedi que saltasse da janela e depois corresse até o portão. Eu me plantei na sala, como na noite do crime. E ouvi perfeitamente o baque e depois os passos de seus pés no cimento. Como naquela noite eu não ouvira nada?
– Então você teve a certeza – adiantou-se Bianca.
– Faltavam ainda os motivos. Na gravadora fiquei sabendo que Barrios andava aparecendo na companhia de uma jovem, seu novo amor. E obtive o endereço dela, pois era para ela que telefonavam quando precisavam contactá-lo. Fui procurá-la. Estava muito assustada com tudo, mas acabou se abrindo. Ela e Barrios iam viver juntos. Apenas faltava-lhe fazer a mala.
– E a confissão, veio fácil? – perguntou Bianca, equilibrada em sua piteira.
– Aconteceu na própria polícia onde fora olhar alguns suspeitos na passarela. Pretexto. O delegado já aceitara meu ponto de vista. Eu próprio lhe contei minha versão: Estela surpreendera Julio quando jogava roupas na mala para sumir. Espremeu-o. Ele confessou. Ia deixá-la por outra mulher. O amor é algo inesperado e o coração é fraco. Ela não gostou da letra desse bolero. Julio vivia praticamente à custa dela. Viu a tesoura sobre a mesa. Golpeou-o p elas costas. Depois do ch oque, pensou em livrar a cara. Havia terra nu ma floreira. Levou um pouco para o peitoril da janela. Deixou as gavetas abertas como estavam. E serviu um cuba-libre ao defunto. Antes ou depois, lembrou-se de Adão das Flores. Ele tinha mania de bancar o detetive. Julio sempre ria disso. Decidiu ir buscá-lo. Se o encontrasse, a encenação seria perfeita. Quanto à segunda ponta de cigarro, ela mesma esclareceu que a apanhara no “Yes”, enquanto esperava o detetive. Queria que ficasse bem claro que outra pessoa estivera com Julio. Enquanto isso o gelo do último cuba-libre derretia, pois o cadáver não podia renová-lo.
– Ela agiu como uma perfeita atriz – comentou Bianca. – E que grande talento!
Adão concordou:
– Apenas participei como ator convidado.

Histórias de detetive
Conan Doyle, Medeiros e Albuquerque, Edgar Allan Poe, Jerônimo Monteiro, Marcos Rey e Edgar Wallace
139 páginas

 

 

 


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

patriciasgueds.wordpress.com/

THIS PLACE TRIES TO SHOW US THAT LEARNING MORE IS POSSIBLE!

My Online Language

Private English lessons online on Skype

Eracio Rondon

"Quem ensina aprende ao ensinar, e quem aprende ensina ao aprender". Paulo Freire

Sala Aberta

Criatividade e Inovação

Teacher Bruna's Blog

A blog to share ideas and experiences related to the English language and its teaching and learning.

Em Badajoz falamos português!!!

Site criado com o intuito de colaborar com os profissionais do ensino/aprendizagem do português língua estrangeira

Histórias em Português

Um blog onde o Clube das Histórias coloca histórias de que gosta e que quer partilhar. Sirva-se e dê-lhes vida! Quer também recebê-las por email? Procura histórias sobre um algum tema ou para um fim específico? Escreva-nos! estorias.em.portugues(at)gmail.com Os nossos objectivos são unicamente pedagógicos, sem qualquer interesse financeiro.

professora adriana ramos

A topnotch WordPress.com site

PROFFPATRYCIA

Aula fora da aula. Um espaço para ampliar o saber e interagir. Aproveite!

Inovar é preciso!!

"Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino". ( Paulo Freire )

PROFESSORA:ROSELI LOPES411

"Mudar é dificil mas é possivel" PAULO FREIRE

yasminlegaldotorg

This WordPress.com site is the cat’s pajamas

teacherlusgai

It´s a pedagogic ressource blog

paolasouza2

This WordPress.com site is the cat’s pajamas

teachermelissabr

4 out of 5 dentists recommend this WordPress.com site

The WordPress.com Blog

The latest news on WordPress.com and the WordPress community.

%d blogueiros gostam disto: